Do parapeito da minha janela….

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Do parapeito da minha janela, eu via a rua, a minha rua.

Uma rua cheia de vida, cheia de gente, uma rua tão diferente! De manhã, bem cedo, abro a janela, enquanto fumo o maldito provisório, lentamente me debruço sobre o parapeito, e oiço o primeiro bom dia, dito pela Dona Alice, que não tinha nenhum marido que se lhe visse! Varria a calçada, em frente a sua mercearia, enquanto trauteava “povo que lavas no rio”! Era cedo, tão cedo…que um bando de putos ainda embalados pelo sono, pontapeava a velha bola de capão de um lado para o outro, os gritos agrestes, de quem vive a plenitude da alegria! Era vida…

Oiço um assobio, é o velho Zé Graxa, outrora marinheiro, agora engraxador, de boina na cabeça e palito na boca, sabe-a toda, na maldita conversa mete 5 paus ao bolso, graças a uma engraxadela com água!!!

Diz ele, que eles nem a manjam! E eu sorrio…

Perto das onze, é hora do tribunal, como eu lhe chamo! As vizinhas juntam-se todas a conversar sobre a vida, não a delas, mas as de toda a gente! Disso não quero saber, respondo eu, e eu la sou gajo para me meter na vida dos outros! Viro costas, provisório na boca, enquanto na minha rua, a vida continua, eu desfolho as páginas do jornal de ontem, o velho relógio não para, teima em não parar, por muito que eu queira.

As duas por três, por entre o cheiro das sardinhas rabo na boca fritas e o arroz de tomate, a tarde chega à minha rua, tanta gente, não fosse a minha rua ser caminho a quem vai para o cais!

Tanta gente, tantas histórias, tantas vidas… E eu do alto do parapeito da minha janela, conheço-as todas, não fosse eu um velho trapo, largado a uma pobre existência, sem nada para fazer!

As gaivotas bravas, por cima do telhado da minha velha casa, dizem-me que o mar está bravo, consigo vê-lo, bem de esguelha mas consigo!

Por entre pregões do cauteleiro, e da varina, oiço desabafos, de gente sofrida, maltratada pelo tempo, sim, deixa-me triste, sentido, mas nada posso fazer!

Enquanto o sol se põe na minha rua, vejo a Dona Alice a fechar as portadas da mercearia, com um breve até amanhã! Os putos suados e cansados de tanta bola, recolhem aos braços da mãe! E até mesmo o Zé Graxa, guiado pelo bagaço de um dia inteiro, me abandona, acenando, e ao gritos me diz. Até amanhã oh poeta!

Cai a noite, maldita noite, ou talvez não, na minha rua já não passa gente, já não há vida, senão a minha!

A lua bem lá no alto, cheia, linda, convida-me à conversa, e eu lá me deixo conversar, ela não fala muito, mas sei que me ouve, pelo menos acredito que sim! Até que adormeço, embalado pelo doce abraço da lua, naquele velho parapeito, daquela rua, igual a tantas outras ruas, mas não como a minha!

Hoje o dia fechou, amanhã abre outra vez, cheio de vida, cheio de gente!

 

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