Conto em Desenvolvimento

Capitulo I – Ricardo Espada

– Rápido! Ele está a ir-se! Rápido! Tragam o desfibrilador! Rápido, suas antas! Do que raio estão à espera? Que ele morra, é?! – gritava desesperadamente o médico, tentado fazer de tudo para salvar o seu paciente.

– Mas… Sr. Doutor… Veja! Ele abriu finalmente os olhos!  – respondeu uma das enfermeiras que se encontrava no quarto – Ele está bem! Olhe! Ele está a respirar por si mesmo!

O médico ficou parado por alguns momentos, como se estivesse em choque, pelo o que tinha acabado de assistir. Depois de dois anos em coma, e quando parecia que o seu coração tinha finalmente desistido de tentar bater, eis que o paciente tinha acordado e respirava sozinho, sem o auxílio de qualquer máquina. Em trinta anos de profissão, nunca ele tinha assistido a um despertar de coma assim. Num momento o coração daquele paciente estava parado, e segundos depois estava a bater com um fulgor como nunca tinha batido desde que tinha entrado, há dois anos atrás, nas urgências do hospital.

Depois de vários exaustivos exames, que confirmaram o excelente estado de saúde em que o paciente se encontrava, o médico deslocou-se ao quarto do paciente para falar um pouco com ele, tentando assim saber do que ele se conseguia recordar, depois de ter estado dois anos em coma profundo. Assim que entrou no quarto, o médico foi surpreendido com a imagem do paciente, em pé, em frente à janela do quarto de onde se podia observar o lindo jardim que se encontrava nas traseiras do hospital, e que, no Verão, se podia assistir a alguns doentes e até médicos, a passearem. Alguns médicos ou enfermeiros, por vezes, até aproveitavam para fazer uma espécie de pic-nic com os colegas, servindo assim para desanuviar um pouco da loucura que eram as longas horas que estavam confinados no interior do hospital, como se fosse uma espécie de catarse colectiva.

O paciente usava apenas uma bata, e estava descalço. Tinha as mãos pousadas nos vidros da janela, e parecia estar confuso. Pelo menos o olhar vago que possuía, enquanto olhava para o jardim, parecia aparentar isso.

– O que pensa que está a fazer? – disse o médico. – Quem é que o deixou levantar-se da cama? Você não está em condições de andar aí de um lado para o outro. Você esteve quase morto, por amor de Deus! Vá, vamos: de volta para cama.

         O paciente não ofereceu qualquer tipo de resistência enquanto o médico o encaminhava para a cama. O olhar confuso e assustado, levava a parecer que ele não sabia bem onde estava nem o que lhe tinha acontecido.

         – Doutor… Ajude-me… Eles não podem saber que eu estou vivo! Ajude-me doutor! – gritou o paciente enquanto agarrava com veemência a bata do médico.

         – Mas… Acalme-se! Calma, senão vou ter de chamar a segurança! Calma! Eles quem? Quem é que não pode saber que você está vivo!? – disse o médico enquanto tentava livrar-se das mãos do paciente que continuava a puxar-lhe violentamente a bata.

         Nisto aparecem as enfermeiras que, ao ouvirem os gritos que vinham do quarto, apressaram-se a ir ver o que se passava. Com elas, vinha um homem de fato, alto, de tez escura, que apresentava uma cara redonda, e com um nariz bicudo. Assim que entrou na sala, o paciente deu imediatamente pela sua presença, como se tivesse pressentido a sua chegada, e olhou assustado para ele.

         O homem de fato olhou para o paciente, soltou um sorriso malicioso e disse:

         – Olá, “Chip”. Oh, como estou feliz por teres acordado… Temos muita conversa para colocar em dia…

         O paciente, ao ouvir as palavras daquele homem estranho que tinha uma espécie de aura de malvadez na forma como falava e como sorria, soltou a bata do médico e deixou-se cair na cama, como se, de repente, um estranho cansaço se tivesse apoderado dele, acabando por fechar os olhos.

         – Oh, desmaiou! – exclamou o médico – Quem é o senhor, e quem é que o deixou entrar aqui?! Faça o favor de se retirar imediatamente, se faz favor!

Capitulo II – Filipe Vilarinho

Sem tirar os olhos da personagem intrigante que acabara de entrar no quarto, o médico pediu ajuda às enfermeiras, enquanto prestava auxílio ao seu paciente.

– Quem é você. – Interrogava o médico quase aos berros,  de estetoscópio em punho tentando medir as tensões ao paciente.

– Apenas um amigo. – Respondeu a visita inesperada coçando o seu proeminente nariz.

– Doutor este é o Sr.  Smith, o contacto na ficha do paciente. – Afirmou uma das enfermeiras que o acompanhou.

– Isso é impossível. Eu sou Smith. -Disse uma voz vinda da porta.

Quase em câmara lenta o primeiro Smith olhou para trás deixando espaço para que o staff médico pudesse ver quem estava na porta.

De Ray Ban Aviador descontraído olhando para o chão, estava aquele que se afirmava ser Smith. Não teria mais de 30 anos, calças de ganga blazer preto, encostado à ombreira da porta, empunhava de modo pouco ameaçador uma Walter PPK, pequena mas eficaz.

O staff médico deteve-se de imediato, médico e enfermeiras encostaram-se à parede levantando as mãos num acto instintivo.

Encostado à ombreira da porta Smith levou a mão esquerda à cara, retirando os óculos escuros. A mão direita segurava o revólver,  que apontava para o o suposto falso Smith.

– Aníbal Aníbal. Já devias saber o quão perigoso é quereres fazer-te passar por mim. E não penses que estás seguro hum hospital. Se eu te der um tiro será letal.

Aníbal tentou esboçar um gesto, mas o quase silencioso clique da culatra do revólver de Smith tornou-se ensurdecedor. Aníbal deteve-se.

-Smith,  não é teu estilo matar com testemunhas.

-Não me tentes Aníbal, posso abrir uma excepção para ti.

Descontraído mas de rosto sério e fechado Smith avançou para Aníbal, retirando de imediato uma pequena arma que Aníbal guardava na cintura. Num movimento quase instintivo, Smith retirou do bolso traseiro um par de algemas que habilmente colocou no pulso de Aníbal, deixando-o algemado ao aquecimento central.

– Não sei o que pretendes com isto Smith, mas posso já dizer que não serás bem sucedido.

– Vamos lá saber Doc, quanto tempo vai demorar para deitar o Chip numa maca para que eu possa transporta-lo?

Médico e enfermeiras sem nenhum tipo de questões apressaram-se a tratar dos preparativos para mudarem o paciente para uma maca.

– Escuta Smith nunca sairás… – Bam! O som de um tiro parecia ter abalado com a estrutura do hospital. Com toda a frieza no olhar Smith acabava de disparar contra a rótula direita de Aníbal que agora grunhia em dor no chão, agarrado à sua perna.

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